terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cheque-mate

Precisava dar um basta naquela vida de incompletudes. Não via conclusões havia meses, um ponto final sequer, e novos períodos abrindo-se a torto e a direito. Daria um jeito. Até o final do ano (o prazo dos prazos), terminaria alguma coisa. Um livro, pelo menos – ou então, seu namoro, que acabara de começar.

Perdeu muitas páginas, avoou-se em tempo ínfimo. Tomou a decisão: pela segunda alternativa. A mãe argumentou, a vó ligou, a tia chorou, a amiga desconfiou – mas apoiou. Não se decidira apenas devido ao encasquetamento em finalizar algo, já avistava o fim daquele relacionamento, “entende”?

Explicava-se – mais para si mesma do que para os outros. Aquela história havia sido gasta sem dó, como pano de chão. Não se podia mais espremer gota de drama sequer. Alguém se atreveria? Talvez, ela até quisesse que alguém se atrevesse – alguém, ela, não. Afinal, tal era decisão mais fácil de se tomar. Apesar de um tanto difícil de seguir. Os meios? Sempre tinha que pensar em tudo! (seu torpor e seu êxtase).

Respirou. Contou os dedos das mãos e dos pés. Tudo no lugar. Consultou as casas dos botões, partiu. Chamou o rapaz desavisado para uma volta no parque. (Por que num parque? Vira nos filmes). No meio de uma alameda, começou – assim teria tempo de terminar até o fim, onde cada um seguiria para um lado:

- Sabe (aquela palavra usada para aliviar o soco seco, com certa delicadeza, no caso, sincera), preciso dizer algo que nunca te disse.
- Tem algo ainda? Você diz tantas coisas... – Riu-se Remo, tão desprevenido da situação como avoado da vida.
- Sempre tem algo – Adiou-se – Nunca te disse que te amo. – Só depois da alguns meses parou pra pensar que, naquele momento, não disse “eu te amo”, mas “disse que te amo”.
- E não ama? – Deslizou por entre as partes do sorriso dele.
- Amo! – Exaltou-se, para então... – Amo. E isso basta. – voltou à personagem que encarnara tão resoluta; ele sem entender nada – Por isso, precisamos de um basta. Acabou. – Sentiu o peso dos olhos dele e ensaiou um desespero interno que quase transbordou – Continuaremos amigos... sim! – e voltou a si - Mas acabou.
- Renata, você é maluca! – Encasquetou-se o rapaz; agora era a vez dela fazer cara de espanto. – Por que decide essas coisas do nada? Você é cheia de surtos!
- É que... eu não sabia o que fazer. Eu não sei. Mas não estamos mais em sintonia.
- A gente nunca esteve. – Beliscão que fez os olhos da moça arregalarem-se prontamente – Mas achei que nos entendêssemos...
- Mais ou menos, você não liga muito pra entendimentos, não é o que parece. E eu, que ligo, fico na mão. Fico sozinha nos meus desentendimentos comigo e com você. Chegou uma em hora que era desentendimento demais pra mim.
- É que você liga demais... Eu ligo pra ficar com você, se eu to com você.
- E quando não tá?
- Que que tem?
- Não se faça de cínico.
- Ai, Renata. Não vou ficar me matando de confabular com as estrelas sobre sua falta, não sou assim, me desculpe.
(Uma pausa. Renata passeou os olhos no céu e desceu – já era quase o final da alameda)
- Desculpo. Porque te amo, não sei por quê. Mas não posso voltar atrás, já fiz um pacto com todas as estrelas que você deixou de lado. Por favor, não fique bravo comigo. Quem sabe um dia daremos jeito. – Disse a moça, firme, sem tirar os olhos dos olhos dele que, então, caíram ao chão.
- Tudo bem. Só não entendo. Mas nos vemos, então?
- Sim...
- Aham. – Conformou-se o rapaz.
Enquanto os pés de Renata já apontavam para o lado direito, Remo precipitou-se:
- Tenho que ir para lá. – Voltou-se à direção oposta – Tchau!
- Tchau...

Um olhares. Renata acordou-se do transe cênico e percebeu que ele ia exatamente para onde ela tinha imaginado, acontecia o que havia previsto no “roteiro”. Teve o ímpeto de segui-lo correndo e agarrá-lo para agradecer pelo belo final de cena. Mas já estava meio voltada para o outro lado. Foi quando duvidou se sua ânsia de finalizar havia sido cumprida. (Então era aquilo?) Percebeu que o final era um grande - e imensurável! - começo.

Um comentário:

Gus disse...

Maldito ciclo vicioso e estúpida insistência no erro de amar. Somos humanos e isso me deixa deprimido, caímos naqueles mesmos erros... Talvez até busquemos o tal erro para preenchermos um vazio, irritante, que temos no nosso ímpeto de felicidade arrojada. Felizmente tenho o prazer de embriagar minha mente com lembranças horríveis e pesadelos pavorosos que preenchem, em mim, a razão de ter dito: “acabou”.