terça-feira, 5 de agosto de 2008

CUBA (em CUC's*)


Seria muita hipocrisia da minha parte falar de Cuba sem me colocar como mera estrangeira. Uma semana de viagem mais alguns dias avulsos de contato com os assuntos desse país são os únicos retalhos de que disponho para costurar uma imagem ‘cubana’. Mas vamos a eles:

As cores de Cuba explodem como as dessa cortina de retalhos. Sua música, tocada em cada praça ou restaurante, as cadeiras de balanço sempre à postos fora das casas, as roupas estendidas do lado externo das janelas e varandas, os livros sobre traços culturais do país abundantes, ao lado dos postais e chaveiros para turistas. A ilha parece querer gritar seu nome para o mundo.

Nomes são o que falta nas estradas, sem placa de sinalização alguma, querem te conduzir a determinados tesouros históricos ou naturais, mas sem dizer como, somente com a ajuda de um guia local. “Não é preciso fazer sentido, Cuba é Cuba”, disse-me o taxista que nos conduziu até o balneário de Varadero, após ser questionado sobre o porquê da falta de sinalização. Logo depois, parou o carro no meio de uma ponte e nos convidou a descer para assistir dois garotos que resolveram praticar um bungee jumping improvisado, bem na hora em que passávamos por lá.

Surpreendeu-me o ato totalmente espontâneo da parte do motorista. Depois de ver que o aparato de cordas e elásticos tinha segurado bem os meninos e voltar ao carro, pensei em perguntar onde é que estavam os policiais da cidade que deveriam tentar impedir cenas como aquela, mas fui arrebatada pela resposta “Cuba é Cuba” trazida pelo vento na janela do táxi em movimento.

Nesse momento, tive uma impressão da “cara” dos cubanos que me parece válida até agora: eles se mostram como são, seus trejeitos, sotaque e gestos não são montados para atender às regras de conduta ocidentais especiais para o tratamento com turistas; no entanto, não mostram tudo, têm cautela ao expor seu cotidiano e seu país a fundo. É como se houvesse uma grade na frente de suas essências (como a que cerca a cortina de retalhos na foto), uma pintura expressionista que não se pode tocar devido ao vidro da galeria de arte.

Para quem é de fora, não é fácil adentrar na Cuba ‘real’, a dos cubanos. Mesmo vindo da América Latina, a palavra “estrangeiro” está estampada na sua testa. Um brasileiro nas ruas de Havana, com certeza, é mais abordado pela população local do que um americano ou europeu – acredito que seja pela postura mais parecida e pelo idioma. Em geral é assim, você está andando por qualquer parte da capital, quando alguém começa a te acompanhar caminhando e te aborda (traduzindo tudo para o português):

- Oi! Da onde você é?
- Do Brasil!
- Ah, Brasil! Futebol, Ronaldinho!
- Isso mesmo...
- Seu país é lindo!
- Você já foi pra lá?
- Não, mas só pode ser muito lindo! Até quando você fica aqui?
- Só mais uma semana.
- Ah.. E você não tem alguma lembrancinha do seu país?
- Não, não trouxe...
- Então me dá um peso (moeda local)?
- Desculpe, não tenho mais nada aqui.
- Ah, um só? Tenho fome, preciso comprar sabão! (...) Olha, já comprou ‘habanos’ (charutos)? Tenho um irmão que trabalha na loja de fábrica e faz um preço muito bom, muito barato!
- Não, obrigada, preciso ir.
- Já conhece a cidade? Venha, posso te levar para fazer um tour, baratinho!
- Obrigada, mas preciso ir.

Simpatia? Sim, em muitos casos. No entanto, ser abordada mais de vinte vezes por dia ou “xavecada” nas mais diversas situações chega a incomodar, já que você não consegue tirar sua máscara de gringo - ‘espécie’ alvo de temporada de caça onde toda a população parece ser caçadora.

É, a pobreza incomoda, como em qualquer lugar, só que lá não há divisão “rico ou pobre” explícita como nos países capitalistas. Aqui, a maioria dos cubanos seria chamada de mendigos pela pobreza material, mas não mendigos de cultura, já que educação para todos é realidade na terra do Fidel.

(Maiores detalhes sobre a estrutura política cubana ficam para outro post, quando houver mais autoridade para falar sobre isso aqui, já que hoje sou turista).

Bem, falava sobre os diálogos. O curioso é que quando abordei alguns cubanos para pedir informações, as conversas foram extremamente parecidas, salvo algumas exceções. A pessoa que mais esclareceu minhas dúvidas sobre todo e qualquer assunto cubano foi um guia turístico da companhia ‘Cubatur’.

Formado em pedagogia, Roger** lecionou por apenas cinco anos antes de começar a trabalhar com turismo em busca de um padrão de vida um pouco melhor. E ele não é exceção, a grande maioria do pessoal do ramo é formada em outra área – tudo por causa das “propinas” (gorjetas).

Os cubanos estão desestimulados a trabalhar para o Estado. O governo garante educação e saúde de qualidade para todos, uma “ração” para ninguém passar fome e moradia: vive-se mal sem um salário para complementar o almoço, mas vive-se sem estar na miséria. Os funcionários do Estado, agricultores ou professores, por exemplo, ganham tão pouco que muitos preferem não trabalhar ou buscar oportunidades no turismo.

As terras da ilha, com potencial para alimentar mais que a quantidade de seus habitantes, estão ociosas. Os preços dos alimentos sobem nos mercados e, segundo Roger, o povo busca alternativa nos “mercados paralelos”, onde pequenos “proprietários” rurais vendem parte dos alimentos que cultivam para sua subsistência.

Então, no dia 18 de julho,
Raúl Castro anuncia a distribuição de terras ociosas a agricultores, em regime de "usufruto", como medida para a segurança alimentar, e é criticado por abrir demais o regime comunista. Mas Cuba é uma ilha, não mais patrocinada pela Rússia e fortemente prejudicada pelo bloqueio dos Estados Unidos, que precisa se manter e precisa alimentar seu povo; o desenvolvimento da agricultura é urgente.

Falando em abertura...

Este texto foi publicado na Internet, meio de comunicação ao qual a grande maioria dos cubanos não tem acesso. Salvo algumas pessoas que trabalham com turismo, nas raras empresas que possuem um computador com acesso à rede ou alguns “hackers” que conseguem se conectar eventualmente, as informações sobre o país e o mundo chegam ao povo apenas através dos poucos veículos nacionais – com as lentes do governo.

Aliás, ao falar com os cubanos, essa tal “abertura” parece ser uma invenção do exterior, porque todos afirmam veementemente que nada mudou com a “troca” de Fidel por Raúl – pelo menos, nenhuma mudança significativa foi sentida até agora.

O que mudou foi a salsa

E isto é um capítulo à parte na minha pequena aventura cubana. Quem me conhece, com certeza, já ouviu sobre meus “planos” de conhecer um salsero e ir morar numa praia da ilha ao som del Buenavista Social Club noite e dia. Bem que tentei colocá-lo em prática, vasculhando as informações dos cubanos nas ruas e indo a diversos clubes noturnos em busca da salsa – mesmo com meus pais junto, o que foi bem engraçado. Mas, pois é, não foi dessa vez.

O subtítulo é exagerado, não é culpa da salsa, não foi a música que mudou, mas seu espaço e a maneira de bailá-la. Alguns de meus neurônios mais idealistas acreditavam que ainda existiria um lugar onde se pudesse dançar e ouvir a autêntica salsa cubana, com os cubanos – como mostram filmes sobre os anos 50 no país. E mais, pensava numa mistura dos shows de salsa glamurosos – da elite e estrangeiros - daquela época com ambientes descontraídos e simples, ricos de espontaneidade local.

É, acho que confundi um pouco as idéias. Ao ler um daqueles livros sobre salsa junto aos souvenires turísticos, descobri que o “baile de cassino”, que ficou famoso e influenciou salseros do mundo todo, era quase uma instituição social, pois, em geral, dançava-se junto a ‘associações’ de elite nas quais era difícil entrar.

Além do mais, apesar do país estar “isolado” do mundo há quase 50 anos, cultura é algo que muda com as novas gerações, em qualquer situação nacional. E a juventude cubana atual conhece salsa, mas gosta é de “regaetone”. Fora os shows de cabaré pra-gringo-ver, as “Casas de la musica” do Estado, onde cubanos e turistas vão dançar, não têm nada de ambientes acolhedores e com “cara de salsa”, são como baladas da Vila Olímpia, com luz negra, fumaça de cigarro e, pior, prostituição.

Enquanto isso, o pessoal do Buenavista Social Club ainda vivo está em turnê pelo globo ou engaiolado em alguma apresentação pra turistas. E os jovens cubanos passam as madrugadas de verão nas muretas do Malecón (avenida beira-mar que liga os dois extremos de Havana) ao som de muito regaetone. Bem, pensar que todos dançassem salsa a torto e a direito seria o mesmo que imaginar toda a juventude brasileira sambando como passista de escola de samba (o que não deixa de ser uma imagem bonita).

O fato é que depois de tantas surpresas e confirmações – porque por mais que se leia ou se ouça falar a respeito de um lugar, vê-lo ao vivo é sempre diferente –, se tivesse que escolher uma frase pra definir esse complexo país, seria obrigada a concordar com o taxista e primeiro cubano com quem falei e dizer: “Cuba es Cuba, y no hay que explicarlo”.


*Cubanos Convertíveis – moeda, usada principalmente pelos turistas, que pode ser trocada pelo dinheiro de outros países; tem valor próximo ao dólar. Enquanto isso, os pesos cubanos não podem ser cambiados; um CUC vale cerca de 24 pesos cubanos.

**Nome fictício

Um comentário:

Grande Rael disse...

Mto legal!
assim viajo o mundo