sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Eles

Quando vi, já tinha me identificado. Eles sabiam quem eu era. Era - não sou mais?
- Quem sabe?
- Eu não. Talvez, eles saibam!
Eles! Eles não são várias pessoas. Eles não é um indivíduo. Eles não é ele.
Eles não são as vozes da minha cabeça, nem da sua.
Mas eles são vozes, ah, são!
Só que não da minha cabeça nem da sua, nem dele, nem dela.
São vozes que misturam as vozes misturadas de muitas cabeças e de nenhuma.
Eles não tem cabeça. Eles tem e têm também, ou não te/êm.
A voz deles entra nas nossas cabeças e mexe com as que moram lá. Quer fazer amizades, mas é mandona, quer controlar - e, muitas vezes, acaba conseguindo.
A voz deles é uma megera, é, tipo uma bruxa rabugenta. Enche o saco das vozes nascidas dentro das nossas mentes até que elas se convençam, elas mesmas, de que estão erradas e a correta é a voz deles.
E essa voz, a deles, fica repetindo que as outras vozes não precisam se questionar, é só aceitar os estereótipos que eles já decidiu.
Um dia, cansei e abaixei o volume da voz deles.
Enquanto as vozes da minha cabeça conversavam umas com as outras, descobrindo-se, eles, lá fora, já me identificavam. Isso me irritava, muito, porque não conseguia entender como eles sabia quem eu era tão facilmente, enquanto eu não sabia.
Eu descobria novidades e mudava a cada dia, as vozes da minha cabeça aprendiam novos idiomas brincando de se cobrir e revelar.
Foi então que parei de ter raiva deles. O cartão de identidade deles é falsificado e insuficiente. Eles são ingênuos. São vozes, mas não tem cabeça. Eles não têm vozes que se descobrem e mudam. Eles acha que é detetive e que têm a chave da identidade, mas eles não sabem como é uma identidade. Eles acham que conhecem tudo e todos. Eles acham que sabem quem eu sou.


Brunaleira
25/10/2007 – 2:10 am
São Paulo, SP.
Rain.

Um comentário:

Thomás disse...

Eles não sabem nada.
Eu sei!
;)