quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Minha bíblia por um pão com arroz

As coisas mais corriqueiras da vida frequentemente passam despercebidas, parecem absolutamente desimportantes perto dos infindáveis compromissos sempre importantes dos paulistanos. Tais compromissos ajudam a aumentar os níveis de congestionamentos que, sob qualquer chuvinha, param a cidade. E quando a chuva não é qualquer, é muita, acontece o que muitos conhecem apenas da Bíblia ou de contos fantásticos: algo apelidado de caos. Foi isso o que aconteceu hoje e que me impediu de ir trabalhar, então, fui obrigada a prestar atenção em algumas pequenas coisas do meu cotidiano e descobri que elas podem guardar segredos muito maiores do que a importância que lhes é dada – ou podem apenas ser mote de uma história engraçada.

Pois bem, no fatídico dia do caos na cidade, fui ajudar minha mãe a fazer o almoço em casa.

- Bruna, faça o arroz.

Certo. Ao pegar o “tuppeware” do dito cujo, percebi que algo se sobressaía entre os grãos. Pela noite mal dormida e a falta de óculos, não conseguia discernir muito bem, mas me parecia absurdo que houvesse um grão assim tão maior que os outros e com uma coloração bem diferente. Depois de esfregar bem os olhos, finalmente enxerguei: tratava-se de um pão, meio duro, bem no meio do arroz.

Tá, não era lá um pedaço de nave espacial ou algo tão exótico quanto isso, mas convenhamos que não é lá muito comum encontrar um pão francês devidamente guardado no pote de arroz, devia ter caído e sido esquecido ali há tempos, nossa, como não prestamos atenção às coisas que fazemos por causa desse dia-a-dia louco e... (minha boca interrompeu minha própria digressão)

- Mãe, o que, raios, este pão velho e endurecido está fazendo dentro do pote de arroz? – disparei, esperando receber uma resposta tão inconclusa quanto a minha.

- Ah, é o Pão de Santo Antônio, oras! – despejou ela, com uma naturalidade de quem até usaria a sigla PSA para se referir ao dito alimento.

- Aaaaaah! E o que ser isso? – indaguei, no mesmo desesclarecimento.

- É o pão que a Vó levou pra benzer na missa no Dia de Santo Antônio. Tem que guardar ele aí pra não apodrecer até o próximo ano, quando tiver a missa de novo.

Ao que utilizei mais um do meu estoque quase vazio de “aaah”s, seguido de:

- Mas pra que ele serve?

- Bom, dizem que Santo Antônio é o santo casamenteiro, né...

- Mas, que eu saiba, você já casou, não?

- É, mas...

- Então espero que você não tenha nenhum plano de pedir a qualquer meio possível ou impossível (como parece mesmo ser o caso do pão no arroz) para que eu me case! – isso fui eu tentando dar uma de durona.

- Nãao, mas Santo Antônio não atende só pedidos de casamento... Ele cuida também do bem estar da família, da casa, sabe?

- Sei... Então o tal santo se materializa num pão francês duro e faz com que as pessoas se dêem bem ao depositar alguma substância conhecida como “benção” no arroz que elas comem... Essa tal de benção não é outro nome pra algo do tipo... Maconha?

- Menina! Até parece que você não fez catecismo! Benção é uma coisa santa...

- Aaah, por isso então que o nome da mãe de Jesus é Maria, só pode ser de Maria Joana, de Marijuana... Agora tudo faz sentido! Por isso que Jesus era tão paz e amor e... – ao ser fuzilada pelo olhar da minha mãe, que parecia ameaçar que eu não tivesse direito ao almoço depois dessa, resolvi abortar a sabatina – Ok, ok. É, o pão até que faz sentido.

- Claro que faz. Então coloque ele de volta na tigela, bem mergulhado no arroz!

- Sim, senhora!

Naquele dia, não tive dor de barriga após comer o arroz, nem outro efeito colateral que a tal benção poderia provocar, e também não fiquei mais amorosa, nem mais irritada. O fato é que o pão no arroz me fez perceber o quanto nos prendemos a crenças por toda parte. O problema não é ter as crenças, o povo brasileiro, inclusive, é mais interessante por causa das milhares de crenças e superstições que esconde em cada canto do seu cotidiano. O problema é a maneira como as pessoas costumam defender essas crenças ao lidar com outros que não as possuem.

Quando alguém esbarra numa crença de outro, esse outro parece assumir uma postura inevitável: estufa o peito, como quem vai defender uma multidão de crianças famintas, e fala com ar de superioridade de quem já entende uma verdade absoluta, e que precisa passar ao pobre que não entende; por um minuto, esquece que está falando apenas de algo como um pão no arroz.

Não deixemos nossas crenças por um ceticismo que chega a ser quase uma doutrina tão forte quanto as das Igrejas. Mantenhamos elas colorindo becos e cantos das casas, pra que alguém as descubra num dia de chuva. Mas não as tomemos como uma bíblia, que, não raro, é tomada quase como uma arma. Deixemos a diversidade aflorar.

Agora me pergunto: o que haverá dentro do pote de feijão?

2 comentários:

Gustavo Braga disse...

_ talvez um pão de forma, mas sem casca. para podermos discernir entre o pão certo a se colocar em cada respectivo pote. o pior, ou melhor, é o esbarrar que acontece com a mesma freqüência que espirros. aliás as duas coisas se assemelham: a] as duas, quando não lhe pertencem, lhe incomodam. b] as pessoas sorriem e lhe desejam saúde APENAS por educação (podendo ser re-adaptada para 'tolerância'). c] se tiver alguém no lugar errado, na hora errada, a situação fica bem melequenta.

Marcus Dullius disse...

Encontrei um pão desses no arroz aqui de casa também levei um susto , e acabei jogando fora o pão , minha mãe quis me matar rsra , mas eu não sabia gente.