segunda-feira, 17 de março de 2008

Fumê

Rosa era uma garota de classe média muito filha dos seus pais, mas em busca de independência. Achou que tirar a carteira de motorista seria seu passaporte para alcançá-la. Entrou na faculdade e ganhou um carro. Passou a fazer jus ao dinheiro gasto pela família no “prêmio” pelo escrupuloso vestibular diariamente, várias vezes por dia. Dividia as tarefas que precisava fazer em algum lugar só para ter que percorrer o trajeto mais vezes ao volante. No trânsito, distraía-se escutando a mesma coleção de CDs ciclicamente e descobrindo paisagens urbanas através do insulfilme.

Do outro lado da janela e atrás de outro vidro escuro, ficava Jaime, o porteiro do prédio onde morava Rosa. Durante dez horas diárias, o ex técnico de computação e jogador de futebol de salão nas horas vagas, conhecido pelos colegas de trabalho como “Jaiminho”, observava o entra-e-sai de veículos na garagem do Edifício das Margaridas. Quando mudou para o turno da tarde-noite, começou a reparar na freqüência com que um carro vermelho que refletia até a luz do pôr do sol passava pela portaria.

O prédio ficava num terreno mais alto que a rua e era preciso subir uma íngreme rampa para entrar na garagem. Antes de afundar o pé na primeira marcha para a subida, era preciso passar pelo primeiro portão, à beira da calçada, e parar logo em seguida para não bater num segundo portão à frente. Então, o primeiro portão fechava-se atrás do carro, que ficava preso, como numa gaiola, por alguns segundos, até que o segundo portão se abrisse – “Medidas de segurança básicas!”, repetia o síndico.

Eram só alguns segundos, mas a precisão na dosagem de acelerador-embreagem tinha que ser exata para IIIIIIIIHH! Ops! Para o carro não morrer. Banalidade um tanto complicada para quem acabara de aprender o que, raios, era uma embreagem. Rosa aprendera rápido, mas a pressão psicológica causada por observadores a deixava nervosa e atrapalhada. O ponto de vista através de dois vidros escuros camuflava qualquer observador, mas a menor sombra de uma silhueta desencadeava a insegurança na garota. A jovem costumava chegar bem tarde da faculdade ou de algum encontro com amigos e, já com sono, não podia evitar imaginar o observador oculto rindo de sua incompetência automobilística, “É nisso que dá, dar carro na mão de criança, essa daí parece ter uns 15 anos!”, ele devia dizer.

Um dia, depois de virar a chave três vezes para reanimar o possante, Rosa resolveu abrir a janela para tomar um ar e encarar seu adversário, o observador, nitidamente. A silhueta escondida na sombra ganhou traços de um homem magro, de cabelos encaracolados, que vestia um terno impecavelmente arrumado. Uma figura que não a deixava tão nervosa. De repente, um “Boa noite, posso ajudar?” surpreendeu-a, vindo da parede, ou melhor, de um alto-falante embutido na parede. Uma voz tornava aquele observador, tão distante, estranhamente real. Rosa, suspensa em indagações desse tipo, respondeu apenas “Tudo bem!” e finalmente conseguiu fazer o carro sair.

No dia seguinte, ao chegar na portaria, Rosa abriu o vidro novamente. Desta vez, surpreendeu-se com a claridade sobre o porteiro: o vidro da guarita tinha sido quebrado! Antes de perguntar o que havia acontecido, ela se entreteve observando aquele rosto nunca antes visto, parecia com alguém conhecido, com algum ator famoso, daqueles de Hollywood mesmo! Riu-se imaginando o Orlando Bloom abrindo o portão para ela todos os dias, e ela sem nem dar a menor bola.

- Boa noite, senhorita! - disse a voz real dele, não transmitida pelo alto-falante.
- Boa noite... É... Que que aconteceu aqui?” - perguntou a garota.
- Moleques, dona, ficam jogando futebol por todo canto! Acertaram uma bola aqui, sorte que ninguém se machucou!
- Ah, crianças são assim mesmo... Mas eu achava que esse vidro era blindado...
- Era mesmo, mas não era “fumê”, aí, o síndico mandou colocar insulfilme e tiveram que colocar este vidro comum provisório.
- Ah, sim... E agora você não tem medo de ficar aí?
- Medo? Se for pra ter medo, a gente não sai de casa, não é mesmo? Não que eu seja muito corajoso, mas é que, na prática, eu fico só vendo pessoas como a senhora entrando e saindo do prédio. Uns parecem um pouco arrogantes, mas a maioria tem uma cara simpática.
Rosa riu-se:
- Acho que eu acharia engraçado ficar observando a cara das pessoas que passam por aqui! Mas, sabe, eu achava que você, o senhor, não era real atrás desse vidro!
- É muito insulfilme nessa cidade, as pessoas não se vêem mais direito, o mundo vai ficando meio virtual mesmo...
- É, as pessoas se escondem no medo da violência, mas acabam é atraindo o mal só pensando nisso, é difícil... Bem, mas melhor eu ir pra casa, boa noite, seu...
- Jaime! Boa noite, dona!
- Rosa. Nada de dona, chega de insulfilme por aqui!

Jaime ficou pensando que, por trás daqueles vidros e barreiras comportamentais todos, devia haver muita gente interessante, como aquela menina. Resolveu não sentir mais raiva dos óculos escuros que pareciam esconder um ar superior, era tudo jogo de encenação, artifícios usados em sociedade que causam efeitos dos quais os atores nem sempre estão conscientes, de tão acostumados com as convenções.

Rosa, por sua vez, continuou com seu dia-a-dia ocupado normal, mas passou a andar de vidros abertos e a conversar com os vendedores de balas e entregadores de folhetos nos faróis, ainda que não aceitasse tudo que distribuíam. Também resolveu parar pra sentir o vento, olhar a cidade e falar com as pessoas na banca de jornal, por exemplo. Sentia-se mais parte do ambiente a sua volta.

A manutenção do vidro blindado foi rápida, instalaram-no, mais escuro, no dia seguinte. Quando chegou em casa à noite, Rosa abriu o vidro para cumprimentar Jaime, mas encontrou a guarita escura e vazia. Quando o segundo portão se abriu, lá estava ele, de pé ao lado do carro:

- Boa noite, dona Rosa!
- Boa noite, Jaime! Já falei que não tem dona nenhuma!
- Desculpe, é costume! Você viu que já colocaram o vidro escuro?
- Pois é, achei estranho mesmo, vi a guarita vazia...
- Eu saí pra te cumprimentar...
- Fez muito bem, Jaime, vamos acabar com esse negócio de isolamento urbano! Diga, como foi seu dia?

A conversa fluiu amigável e naturalmente interessante. Jaime descobriu que Rosa tinha um computador com problemas e ela descobriu que ele podia ajudá-la. Combinaram que, às 17 horas do dia seguinte, ele iria até o apartamento 21 portando seus conhecimentos em informática.

Depois de apertar muitas teclas e fios, o computador ficou tinindo. Jaime aceitou, ainda com muita vergonha, tomar um café com bolo junto a Rosa e sua mãe. Numa conversa amigável, contou a elas sobre seu interesse por tecnologia e seus planos para o futuro, trabalhar na área de sua vocação.

- É, bom rapaz. Bom e belo, até que não é de se jogar fora... – Disse a mãe de Rosa.
- Ai, mãe, não vem querer me arrumar partido! Sempre falei que vou ser solteira quando crescer.
As duas riram e o assunto morreu.

O fato é que o caso clichê de amor entre classes sociais diferentes aconteceu, logo depois que Jaime pediu demissão da portaria, pois teria que ficar à noite em casa para cuidar de sua mãe doente. Ao final de seu último expediente, deixou um bilhete com seu telefone debaixo da porta de Rosa, sabia que ela ligaria. E ligou mesmo. No final de semana, foi visitá-lo em sua casa e levou biscoitos que sua mãe mandou para a mãe dele. Depois, saíram e foram ao cinema, onde rolou o primeiro beijo e ela ganhou sua primeira rosa vermelha.

Eles moravam longe, ela estava sempre ocupada, ele não entendia suas ausências. Quando as discussões ficaram insuportáveis, decidiram terminar, mas foi pacificamente. Vez ou outra, ligavam-se, perguntavam da família, do trabalho. Um dia, o primo de Rosa virou gerente de uma Lan House e precisava de um parceiro, a indicação de Jaime foi imediata. Deram-se muito bem, o negócio cresceu e se estabilizou. Jaime nunca chegou a ir às reuniões da família de Rosa, mas encontravam-se nos aniversários do primo dela, sócio dele.

Um dia, aconteceu o improvável, Rosa iria se casar. Conhecera um alemão em suas aulas de salsa, amor ao primeiro passo, estava certa do que queria. Jaime seria o padrinho, foi o primeiro a saber, Rosa nem sabe dizer o porque ligou para ele antes de contar para suas amigas, um impulso. Ele estava muito feliz por ela, também namorava uma garota mais nova que o fazia feliz.

Uma semana antes do casamento, foram arrumar o apartamento que haviam comprado. Foi aí que começaram os desentendimentos. É que o noivo de Rosa gostava muito de cortinas. Cortinas, óculos escuros e insulfilme. Ela não agüentou, sentia-se sufocada com todas aquelas barreiras. Comprou-lhe o último modelo de óculos de sol da moda, chamou-o para uma conversa no parque e terminou com ele ali mesmo, debaixo das sombras das árvores.

Ele resolveu voltar para a Alemanha duas semanas depois. Nunca mais se viram. Ela sobreviveu bem. Mudou-se para um loft bem iluminado e arejado, largou um de seus dois empregos, o que não lhe agradava, de assessoria de imprensa; ficou com o outro, como repórter da sessão de entrevistas de uma revista e entrou para uma Ong de apoio a crianças com deficiência visual – o que a fazia mais realizada.

Noutro golpe do acaso, teve que fazer uma matéria sobre empresas de informática e chamou Jaime para uma entrevista. Estão namorando desde então. Estão diferentes, o jogo é aberto, não escondem nada um do outro. Se isto começar a acontecer, será hora de terminar, não dá pra viver nas sombras, nenhum dos dois gosta disso. Talvez Rosa até tenha perdido sua vocação para ser solteira, mas não perdeu a mania de dizê-lo, talvez nunca a perca. Quem liga? O que os dois querem é sinceridade - e isto parecem haver encontrado, no meio de tantos obstáculos e coisas obscuras.

3 comentários:

Fabricio disse...

Wow. Acho que a primeira lida não foi suficiente para pegar todas as sutilezas.

Até que o q vc escreve não é de todo mal :-). Ficou ótimo ^.^.

To indo ler novamente...

Bruna Escaleira disse...

Brigada, Fabrício!
(não acredito que alguém teve paciência de ler tudo, acho que foi o texto mais longo que já publique aqui haha)

Alice disse...

Bru.
gracinha de texto. quando vc menos espera, surge um romance!

achei que vc fosse discutir aquelas coisas sérias da famosa bolha em que as classes altas se escondem,de que mais isolamentos são criados, deixando todos presos em meio a portoes, cameras de vigilancias e fios elétricos em cima dos muros.
Ou que não se dá mais valor para as relações humanas e que cada vez mais as pessoas se alienam em seu próprio mundinho individualista.
E blablabla.

Pensando bem, num é que vc discutiu?
O que a Rosa fez foi nada mais do que abrir a janela e esquecer do insufilme. E viver feliz e apaixonada. Sem mais preconceitos. Sem medo. Só vivendo. Sinceramente.

Adorei, mami.
=)