quando chove por aqui, chove a cidade inteira
derretem-se as fachadas dos arranha-céus
e as esperanças de chegar cedo em casa
a água cai como as roupas dos varais esquecidos
e os cães trovejam sua audição privilegiada
há até trânsito de guarda-chuvas nas calçadas
e as gotas fazem arte nos retrovisores das motos
os chorões perdem o controno de suas folhas
e as flores ficam ainda mais coloridas
auréolas formam-se ao redor dos postes de luz
e até as lombadas crescem com a irrigação
um pássaro relampeja debaixo do ponto de ônibus
e alguém chove pensamentos janela abaixo
enquanto os penteados fogem sem classe alguma
e as crianças viram raios nas poças d'água
sábado, 28 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
retalhos d'um alvorecer
sua pele de manhã é moldura pro meu dia
as calçadas molhadas que abraçam as ruas
não são mais nuas que nossa história crua
vezemquando vestida de nascer ou pôr-do-sol
eu vou
por entre entradas de bandeiras e de corações
atravessando becos tortos e finas canções
como um tango-descompasso de quem acertou
você vem
sem delongas nas milongas dessa meia-luz
driblando enxames de incertezas que não nos conduz
e chega em tempo sem ponteiro que só a gente tem
e a gente fica
muito junto, sempre perto até não enjoar
mesmo indo e vindo longe de qualquer lugar
porque sua pele à noite é textura pros meus sonhos
e é tão inexplicável que de verdade a gente brinca
as calçadas molhadas que abraçam as ruas
não são mais nuas que nossa história crua
vezemquando vestida de nascer ou pôr-do-sol
eu vou
por entre entradas de bandeiras e de corações
atravessando becos tortos e finas canções
como um tango-descompasso de quem acertou
você vem
sem delongas nas milongas dessa meia-luz
driblando enxames de incertezas que não nos conduz
e chega em tempo sem ponteiro que só a gente tem
e a gente fica
muito junto, sempre perto até não enjoar
mesmo indo e vindo longe de qualquer lugar
porque sua pele à noite é textura pros meus sonhos
e é tão inexplicável que de verdade a gente brinca
terça-feira, 17 de novembro de 2009
O maleiro de Pinheiros
Bigode de mariachi. Cabeça raspada ao vento. Blusa rosa-menina. Pele de sol tomado. Mala de viagem do avô. Mochila moderna para mochileiros. All star no estilo da metrópole. A cara de São Paulo. Mas olhar de forasteiro. Domava a faixa de pedestres desafiando os carros no farol verde.
Até que chegou o carro de Clara, com ela dentro. Olhou pra motorista e precipitou-se para a calçada. Ela passou a seu lado, mas o farol continuava verde.
A moça ficou o dia todo pensando no paradeiro daquele personagem peculiar: d'onde viria? Por onde andaria? Teria domado todas as feras citadinas em sua trilha até a gruta que o refugiaria?
Ou seria um viajante romântico? Compraria um mapa e uma flor no farol - para oferecer a uma moça e pedir-lhe indicação de caminhos. E se fosse um ator, intérprete de Pancho Villa, que cheva à cidade para uma temporada de apresentações? E se os espetáculos fossem na rua e ele tirasse o chapéu para pedir dinheiro? E se fosse um cigano andarilho, coletando moedas, amores e misticismos pelas calçadas?
As suposições possíveis quase não a deixaram dormir.
*
Uma semana depois, Clara precisou voltar ao bairro onde encontrara o suposto forasteiro. A mala que ele carregava lhe deu uma ideia de presente de aniversário para seu avô, que viajaria à Itália (sua terra natal) em breve. Já nem pensava mais no sujeito das suposições sonâmbulas. Sua tia lhe dera a indicação da loja de malas, chapéus e outros acessórios antigos em Pinheiros.
Tocou a campainha e subiu os pequenos degraus até a loja alojada numa casa antiga. Um senhor alto de cabelos brancos ajudou-a a escolher a valise perfeita. Mas estava riscada.
- Adamastor! - gritou o homem.
Prontamente, apareceu um rapaz baixo, magro, pele de sol tomado, bigode de... mariachi! O "forasteiro"!
- Arrume este risco para a moça, por favor.
Ao que ele balançou a cabeça simpaticamente, sem proferir palavra, o que aguçou ainda mais a curiosidade de Clara sobre o tipo.
- Não quer esperar lá fora no nosso jardim, senhorita? Temos lindas roseiras! Ele lhe levará a mala em seguida. - Convidou o dono da loja.
Aceitou o convite balançando a cabeça. Aquele "senhorita" salpicava seus tímpanos como um gotejo de passado que escapulia às barreiras dos tempos. Já as rosas pareciam mais reais, havia uma branca tão aberta quanto o sol de verão...
- Mas vermelho é a sua cor - disse Adamastor, às suas costas, com uma rosa vermelha e a mala nas mãos.
- Que susto! - sobressaltou-se a moça - Mas como você sabe que prefiro vermelho?
- Não sabia, agora sei - retrucou, abrindo um sorriso e entregando-lhe a mala e a flor.
Clara segurou-os, mas não se afastou. Rodeando-o com a cabeça, começou o interrogatório:
- Você se lembra de mim?
- Creio que não. Deveria?
- Provavelmente não... De onde você vem? Digo, onde nasceu, onde mora?
- Aqui mesmo. Nasci numa casa na rua debaixo, mas trabalho com meu tio-avô desde menino nesta loja - essas coisas antigas são minha paixão. Já tinha vindo aqui antes?
- Não, trombei com você outro dia num farol, aqui perto. Achei que era um viajante, porque levava uma mala como esta.
- Ah! Bem, de certa forma, pode-se dizer que sou mesmo um viajante. Viajo por essas ruas todo dia. Mas aquele dia, devia estar levando uma mala pra passear.
- Uma mala?
- Sim, é preciso fazer isso de vez em quando, senão elas esquecem como é que se viaja e quando os clientes as levam, reclamam que se perdem ou não funcionam direito. Essa aí que você está levando, por exemplo, é uma das mais passeadeiras, adora descidas e pores-do-sol!
Clara respondeu com um riso intrigado.
- E você, pra onde vai? - perguntou Adamastor.
- Achei que ia perguntar de onde venho...
- Isso não me interessa agora. Diga, pra onde vai?
- Não sei, acho que voltar pra casa, pra embrulhar o presente.
- Já que você acha, eu acho que não. Vamos passear com a Marlinda, sua mala. Topa?
A moça hesitou um pouco, e disse:
- Vamos, já está mesmo na hora do pôr-do-sol.
Até que chegou o carro de Clara, com ela dentro. Olhou pra motorista e precipitou-se para a calçada. Ela passou a seu lado, mas o farol continuava verde.
A moça ficou o dia todo pensando no paradeiro daquele personagem peculiar: d'onde viria? Por onde andaria? Teria domado todas as feras citadinas em sua trilha até a gruta que o refugiaria?
Ou seria um viajante romântico? Compraria um mapa e uma flor no farol - para oferecer a uma moça e pedir-lhe indicação de caminhos. E se fosse um ator, intérprete de Pancho Villa, que cheva à cidade para uma temporada de apresentações? E se os espetáculos fossem na rua e ele tirasse o chapéu para pedir dinheiro? E se fosse um cigano andarilho, coletando moedas, amores e misticismos pelas calçadas?
As suposições possíveis quase não a deixaram dormir.
*
Uma semana depois, Clara precisou voltar ao bairro onde encontrara o suposto forasteiro. A mala que ele carregava lhe deu uma ideia de presente de aniversário para seu avô, que viajaria à Itália (sua terra natal) em breve. Já nem pensava mais no sujeito das suposições sonâmbulas. Sua tia lhe dera a indicação da loja de malas, chapéus e outros acessórios antigos em Pinheiros.
Tocou a campainha e subiu os pequenos degraus até a loja alojada numa casa antiga. Um senhor alto de cabelos brancos ajudou-a a escolher a valise perfeita. Mas estava riscada.
- Adamastor! - gritou o homem.
Prontamente, apareceu um rapaz baixo, magro, pele de sol tomado, bigode de... mariachi! O "forasteiro"!
- Arrume este risco para a moça, por favor.
Ao que ele balançou a cabeça simpaticamente, sem proferir palavra, o que aguçou ainda mais a curiosidade de Clara sobre o tipo.
- Não quer esperar lá fora no nosso jardim, senhorita? Temos lindas roseiras! Ele lhe levará a mala em seguida. - Convidou o dono da loja.
Aceitou o convite balançando a cabeça. Aquele "senhorita" salpicava seus tímpanos como um gotejo de passado que escapulia às barreiras dos tempos. Já as rosas pareciam mais reais, havia uma branca tão aberta quanto o sol de verão...
- Mas vermelho é a sua cor - disse Adamastor, às suas costas, com uma rosa vermelha e a mala nas mãos.
- Que susto! - sobressaltou-se a moça - Mas como você sabe que prefiro vermelho?
- Não sabia, agora sei - retrucou, abrindo um sorriso e entregando-lhe a mala e a flor.
Clara segurou-os, mas não se afastou. Rodeando-o com a cabeça, começou o interrogatório:
- Você se lembra de mim?
- Creio que não. Deveria?
- Provavelmente não... De onde você vem? Digo, onde nasceu, onde mora?
- Aqui mesmo. Nasci numa casa na rua debaixo, mas trabalho com meu tio-avô desde menino nesta loja - essas coisas antigas são minha paixão. Já tinha vindo aqui antes?
- Não, trombei com você outro dia num farol, aqui perto. Achei que era um viajante, porque levava uma mala como esta.
- Ah! Bem, de certa forma, pode-se dizer que sou mesmo um viajante. Viajo por essas ruas todo dia. Mas aquele dia, devia estar levando uma mala pra passear.
- Uma mala?
- Sim, é preciso fazer isso de vez em quando, senão elas esquecem como é que se viaja e quando os clientes as levam, reclamam que se perdem ou não funcionam direito. Essa aí que você está levando, por exemplo, é uma das mais passeadeiras, adora descidas e pores-do-sol!
Clara respondeu com um riso intrigado.
- E você, pra onde vai? - perguntou Adamastor.
- Achei que ia perguntar de onde venho...
- Isso não me interessa agora. Diga, pra onde vai?
- Não sei, acho que voltar pra casa, pra embrulhar o presente.
- Já que você acha, eu acho que não. Vamos passear com a Marlinda, sua mala. Topa?
A moça hesitou um pouco, e disse:
- Vamos, já está mesmo na hora do pôr-do-sol.
domingo, 15 de novembro de 2009
>da série Poemário Relâmpago
*
O dia em que Laurita aprendeu a colorir
num dia comum, acordou com um sorriso no rosto sem motivo. em vez de guardá-lo, saiu por aí alegrando a vida.
Arranharam meu carro
mas foi uma árvore
então tudo bem
perfiro vê-lo caindo aos pedaços
a não assistir o balanço das folhas
Se ainda tenho alguma sanidade
é porque paro pra fazer loucuras e escrever asneiras.
*
O dia em que Laurita aprendeu a colorir
num dia comum, acordou com um sorriso no rosto sem motivo. em vez de guardá-lo, saiu por aí alegrando a vida.
Arranharam meu carro
mas foi uma árvore
então tudo bem
perfiro vê-lo caindo aos pedaços
a não assistir o balanço das folhas
Se ainda tenho alguma sanidade
é porque paro pra fazer loucuras e escrever asneiras.
*
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
loucos: Precisa-se!
Chamam louco aquele que sorri
num dia tão nublado e feio
Ou quem cumprimenta a todos
numa sala tão fria e fresca
Maluco é aquele que dança
no meio do trânsito infernal
O que agradece um gesto simples
tem entrada livre no manicômio
E aquele que não segue a moda
encaixa-se no estilo doidão
São é o que pisa em alguém
pra ganhar mais um vintém
O que passa reto pela vida
tem a sanidade garantida
E quem se camufla pra suportar
que ao mundo não pode se entregar
É são, como aquele que derrama
as mágoas sobre todo amor e chama
Então pra salvar o mundo,
proponho uma inversão:
libertemos nossos loucos
e amordacemos todos os sãos
- até que aprendam alguma maluquice!
num dia tão nublado e feio
Ou quem cumprimenta a todos
numa sala tão fria e fresca
Maluco é aquele que dança
no meio do trânsito infernal
O que agradece um gesto simples
tem entrada livre no manicômio
E aquele que não segue a moda
encaixa-se no estilo doidão
São é o que pisa em alguém
pra ganhar mais um vintém
O que passa reto pela vida
tem a sanidade garantida
E quem se camufla pra suportar
que ao mundo não pode se entregar
É são, como aquele que derrama
as mágoas sobre todo amor e chama
Então pra salvar o mundo,
proponho uma inversão:
libertemos nossos loucos
e amordacemos todos os sãos
- até que aprendam alguma maluquice!
domingo, 4 de outubro de 2009
.pertencimento*
não gosto de posse
pois tudo pertence a ninguém
e não existe guia
pra quem não usa coleira
então como escapar das amarras
que tanto nos furtam o todo
se quero um amor inteiro
até com suas falhas
alguns dizem vá em frente
outros me avisam que não dá
dizem: 'amor real é coisa da mente'
será?
mentem querendo que eu acredite
na desilusão sem dor
no sorriso sem calor
e tem quem aguente?
o calor que nos esquenta
ninguém sente do mesmo jeito
e talvez o sol não seja de ninguém
mas o coração em chamas é meu
assim como eu não sou de você
nem você é meu
eu com você, você comigo
e por isso nos pertencemos tanto
*com http://silencio-do-dizer.blogspot.com/2009/10/pertencimento.html
pois tudo pertence a ninguém
e não existe guia
pra quem não usa coleira
então como escapar das amarras
que tanto nos furtam o todo
se quero um amor inteiro
até com suas falhas
alguns dizem vá em frente
outros me avisam que não dá
dizem: 'amor real é coisa da mente'
será?
mentem querendo que eu acredite
na desilusão sem dor
no sorriso sem calor
e tem quem aguente?
o calor que nos esquenta
ninguém sente do mesmo jeito
e talvez o sol não seja de ninguém
mas o coração em chamas é meu
assim como eu não sou de você
nem você é meu
eu com você, você comigo
e por isso nos pertencemos tanto
*com http://silencio-do-dizer.blogspot.com/2009/10/pertencimento.html
Os tolos
chorei feito um idiota
acreditei como um imbecil
comemorei tolices infundadas
gritei de desilusão inútil
cantei babaquices bobas
senti cada dia tosco
então me perguntaram o porquê disso tudo
e respondi:
amor
foi aí que me dei conta de que tolos são os que não amam.
acreditei como um imbecil
comemorei tolices infundadas
gritei de desilusão inútil
cantei babaquices bobas
senti cada dia tosco
então me perguntaram o porquê disso tudo
e respondi:
amor
foi aí que me dei conta de que tolos são os que não amam.
Assinar:
Postagens (Atom)